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quinta-feira, 12 de abril de 2007

POGO 53


Foi este o meu callsign ontem, dia 10 de Abril de 2007. POGO é o callsign utilizado para denominar o primeiro voo solo, o 53 é devido ao instrutor que me largou, Tenente Brady Marsh, ser o Texan 53. Esteve tudo planeado até o tempo nos trocar as voltas todas. Com o céu tapado de nuvens, sem visibilidade aguardou-se até às 12h21 para cancelar um voo marcado para as 11h21. Chega a hora de decisão e o voo é cancelado. Toda a preparação psicológica para o voo de largada no T-6 arrumada para um canto. Até que... o tempo se lembra de mudar e de repente abre. Céu azul, dia de primavera, quase sem nuvens no céu, parecia que tínhamos viajado para um outro lugar. O voo cancelado afinal toma efeito com cerca de 1h30 de atraso e parto para o voo que precede a largada, só para assegurar que estou definitivamente pronto para ir para os céus sozinho.

Tudo corre bem, aterra-se algum tempo para por as ideias em ordem, faz-se o briefing, trocam-se placas de nome e mandam-me sozinho para o avião. Fato anti-g, arnês, capacete, máscara, publicações, guia de voo e checklist e aí vou eu...

Chegado ao avião é altura de verificar que está tudo em ordem, verificar o livro do avião e fazer o chamado walk around (do qual podem ver parte neste vídeo).


Tudo estava ok, entrar no cockpit seguir os procedimentos com especial atenção pois não há ninguém no lugar de trás para nos alertar para o facto de nos termos esquecido de algo. Chega a primeira emoção forte, por o motor em marcha...

(é pura ilusão de óptica o hélice roda sempre na mesma direcção)
Já com tudo pronto, sistemas verificados e autorização da torre, é agora tempo de tirar os travões e começar o taxi (movimento do avião no chão) em direcção à pista em uso (31L)...


Vários circuitos, algumas aterragens (o circuito de aterragem estava bastante movimentado e não era fácil ter janela para aterrar). Tudo correu bem, como esperado, e passado pouco mais de 1h de voo, aterragem final e taxi de volta para a placa dos T-6. Mais procedimentos, cortar motor, preencher o livro do avião e regressar de uma missão bem sucedida.

Tempo agora de tradições, também na América há o banho de largada, mas por cá num tanque denominado Pogo Tank. Melhor do que descrever, é mostrar...


Avião voado e trazido em segurança de volta ao chão, tradições cumpridas, um grande sorriso nos lábios de contentamento e orgulho...

Mais uma etapa superada, mais seguirão! Se tudo correr bem, para a semana vou voar sozinho outra vez. Desta feita vou sair do circuito de aterragem e, à semelhança do meu último voo de Chipmunk, vou até à zona de trabalho fazer algumas manobras simples de acrobacia. Pequeno pormenor, o voo antes desse é a minha Mid Phase Checkride... não há-de ser nada!

Entretanto hoje tivemos mais um exame, Instrumentos 2. Assustou, mas à semelhança dos outros exames também conseguimos dominar este. Venha o próximo!

Mais coisas, chegaram há não muitos minutos o Oliveira e o Abreu ao Texas, este fim-de-semana lá teremos de ir ter com eles para os receber e cumprir tradições. Sejam bem vindos!


Um Grande abraço,
Diogo Bento

quarta-feira, 8 de março de 2006

A Máquina Infernal...


A Máquina Infernal é daquelas coisas que ainda me dá muito alento para enfrentar o dia-a-dia, cada vez que se ouve aquele som do "vais voar!" ou pura e simplesmente o ouvir do seu ronco quando sobrevoa o espaço em que me encontro algo se revolta e o desejo de estar nas nuvens urge!

Hoje tive o privilégio e o prazer de, passados 2 anos e quase um mês, voltar a voar solo no Chipmunk Mk20.

Chegado à esquadra de voo da Academia da Força Aérea (Esquadra 802), ver o planeamento. Dois voos, o primeiro: Chip com o número de cauda 01315, callsign: Águia52, LF (Lugar da Frente): CadAl PilAv D. Bento, LT (Lugar de Trás): COR Poêjo, ETD (Estimated Time of Departure): 14h30, ETE (Estimated Time Enroute): 00h30, Zona: Circuitos.
O segundo: Chip com o número de cauda 01315, callsign: Filhote52, LF: D. Bento, LT: n/a, ETD: 15h00, ETE: 01h00, Zona: Circuitos.

Algo começa a borbulhar cá dentro, de um lado o desejo misturado com o sonho e prazer, do outro o peso da responsabilidade e os riscos que isso implica.

Eis que chega o instrutor à esquadra, faz-se o briefing, acertam-se alguns pormenores relativos ao circuito de aterragem e traça-se o perfil da missão. O vento não dava certezas de nada, oscilava entre valores que não levantam problemas e outros para os quais o Chipmunk não pode voar só com um tripulante. "Vamos voar e depois logo se vê se dá ou não para o segundo voo."

Chegados à linha da frente, é tempo de verificar nos livros do avião que está tudo OK, ir ao cacifo buscar o capacete e as luvas de voo, pegar num pára-quedas e dirigimo-nos para a fera.
Inspecção geral, interior e exterior é feita enquanto o instrutor se prepara e dirige para o avião. Todos os pormenores são expedita e seriamente analisados com a ajuda do checklist.

A inspecção está feita, o instrutor já chegou, monta-se a fera...

Procedimentos atrás de procedimentos e finalmente faz-se sinal ao mecânico que se vai por o motor em marcha. Tudo preparado, carrega-se no starter e eis que o animal acorda com um ronco que intimida qualquer um ao seu redor. Contacta-se a torre e estamos autorizados a taxiar até à posição de espera para a pista 32.

Feito o teste ao motor, a torre dá-nos autorização para alinhar e descolar, "Águia 52, cleared to take-off"... motor a fundo, o animal começa a soltar-se e a roda de cauda levanta. Tudo parece diferente. A velocidade aumenta, temos 60kts, e com jeitinho deixamos que o avião vá para onde nasceu para estar, airborne!

Primeiro circuito e tudo parece estar a correr bem... as primeiras aterragens são seguras.
Até que num circuito me passa pela cabeça que há imenso tempo que não faço um borrego (aborto à aterragem). Nem tarde nem cedo, chegando à altura de arredondar o vento sopra mais forte, o avião revolta-se e pede para se afastar do chão. Como sempre me disseram que "mais vale um bom borrego que uma má aterragem", sem hesitar, "gazoskopus", "Sintra, Águia 52, On the go" e aqui vamos nós outra vez para mais um circuito, o próximo vai ser melhor de certeza. Assim foi, sem percalços a aterragem foi efectuada!
Circuito sem flaps... O vento continua variável. Straight In... Vento variável. Break Out for Training... O voo já vai em quase 01h00 e o vento continua variável. No entanto, andava sempre quase enfiado com a pista e estava com tendência a, no máximo, ficar no limite para voo solo.

Finalmente dá-se a decisão, o instrutor vai deixar o avião e mandar-me lá para cima sozinho, se o vento se mantiver dentro dos limites. O nível de adrenalina sobe exponencialmente! Não só por ir poder fazer uma coisa que adoro e ser uma sensação extraordinária poder fazê-lo sozinho, mas também por sentir a confiança por parte do instrutor em deixar o avião nas minhas mãos e apenas nas minhas mãos.

Depois de amarrados os cintos do lugar de trás, tudo a postos e volto a falar com a torre, mas desta vez de maneira diferente e, ao estar pronto para a descolagem digo "Sintra Tower, Filhote 52, ready for departure". A ansiedade aumenta enquanto tenho de esperar por um FTB na final e um outro Chipmunk que o seguia, ambos para aterrar. Depois de a pista estar novamente livre ouve-se finalmente no rádio "Filhote 52, Line Up and Wait" seguido de um "Filhote 52, Cleared for Take-Off"

Finalmente, volto a sentir a fera sob o meu poder, sem mais ninguém a acompanhar...
Enquanto, na Torre o instrutor agora me segue atentamente com os olhos e se mantém atento em relação às alterações do vento, eu sigo pelo circuito de aterragem com aquela sensação de poder, responsabilidade e satisfação.

Falando e cantando em voz alta sozinho, lendo os procedimentos como se o instrutor lá estivesse a ouvir o que estava a dizer e a explicar o voo a mim próprio, o voo corre dentro das normalidades.

5 aterragens e mais um circuito em que, devido a um Aviocar em Straight In a 1.5 milhas, para aterrar, me vi obrigado a sair do circuito, com um Break Out em direcção a Lourel, ponto de entrada no circuito.

Como dizem, não há vez como a primeira, mas voar é sempre como se uma primeira vez se tratasse, é sempre diferente, emocionante. E sabe tão bem, ao fim da tarde, chegar à placa estacionar o avião, cortar o motor, desmontar a fera e, pegando na Checklist, olhar para a Máquina Infernal que é o Chipmunk e pensar...

"Missão cumprida! Até à próxima, amigo..."
(cedo, espera-se)